Esse texto surge de uma visita ao artista Chico Santos, que me recebeu no dia 09 de agosto de 2016; fazia muito tempo que desejávamos esta conversa, como quem deseja encontrar um velho amigo.
 

Ele me recebeu em seu ateliê.
 

Havia cúpulas de vidro com casinhas (principal elemento de seu trabalho) como se fossem espécies de animais trazidos de um continente desconhecido, estavam organizadas em uma prateleira, havia uma mesa de marcenaria, sacos de resíduo amontoados, módulos vazados. Estes elementos ocupam todo lugar que é um tanto creme ou assim me pareceu naquele dia, resultado de uma fina película de pó comum aos ambientes onde o tempo não se registra apenas através de relógios. Sentamos de frente para seu jardim e a conversa correu solta, perfeita e cheia de silêncios – o artista pensa muito para falar, o que me fez pensar também.
 

As instalações que estarão presentes no SESC Presidente Prudente: Errant Domos, Fructus Domos, Locus e Oppidum Domos, têm todas elas casinhas em pequeno formato feitas em fibra de vidro, resina ou polietileno e parecem, à primeira vista, objetos lúdicos, de uma infância permanentemente deslocada. Suas diferentes configurações solicitam a percepção delicada de quem entrar em contato com elas. Formam grupos grandes, brotam minúsculas em troncos abandonados, parecem caminhar pelo espaço. São sempre brancas, ou quase brancas, sempre delicadas. O artista, quase em oposição é denso, espera de si mesmo um conhecimento que o torne a cada dia mais autônomo na confecção de seus trabalhos e o faça reposicionar valores, mantendo-se livre das seduções do conforto. Estes trabalhos são todos realizados em seu ateliê e sem ajuda de outros profissionais, a partir de uma pesquisa intensa e solitária sobre a química dos materiais e procedimentos necessários. Desenvolvendo este conhecimento o artista cria o entendimento particular que tem sobre a origem das suas casinhas. Entende o corpo que elas terão. Chico se pergunta como seriam se nascessem naturalmente? Onde nasceriam? Onde morreriam? Assim sua anatomia é definida e as casinhas se adaptam às características do lugar onde surgem.
 

Elas crescem devagar – o artista presta atenção aos detalhes como se criasse um boneco e ao final esperasse dele um comportamento. Como fez Gepeto ao criar Pinóquio.
 

Voltando de Seattle, onde realizou recentemente uma exposição, percebeu uma coisa que o incomodou: os americanos queriam saber mais como o trabalho foi feito, interessando a eles mais as questões técnicas: por que não são de bronze, por que não são grandes, o que para o artista é menos importante. Quando monta suas instalações, Chico se interessa pelo tempo estendido que os pequenos trabalhos exigem das pessoas, na percepção dos detalhes, em como se tornam figuras no mundo. Não usa o bronze porque deseja que seus trabalhos, como figuras vivas, acabem, “os trabalhos não tem que ser eternos”, sugere o artista, defendendo que a efemeridade o interessa na justa medida em que sua percepção está em acordo com a própria vida. Segundo ele, seu trabalho também morre, passa, mesmo que dure muito. Trabalhos grandes, que funcionariam como uma espécie de show visual, não interessam ao artista.
 

Como monumentos às pequenas coisas, as delicadezas mais imediatas, suas pequenas casinhas não são boas nem más, são o que são, com dois ou mais lados, e como tudo o que é semeado podem crescer e se tornar isso ou aquilo. Como um fungo que pode tanto causar uma doença quanto ser a sua cura. Estão em acordo com os ciclos de nascimento e morte da natureza e assim sendo guardam os mistérios insondáveis que animam cada ser vivo.
 

O Estudio Glibi de animação é uma das referências que o artista menciona. Lembrei de ter visto muito encantado Meu Amigo Totoro. O Totoro que dá título à  produção é uma espécie de animal desvio/desviante/fantástico que permite a uma garota reencontrar o caminho de casa fazendo da jornada uma experiência mágica. A intensidade da narrativa se dá porque o inesperado é a sua estrutura. Fiquei pensando no que podemos descobrir sobre a realidade, quando sob um olhar mais atento ela se abre e se oferece como mistério puro. Que lugares frequentamos quando seguimos os caminhos sugeridos por nossas percepções mais honestas? Que mistérios alcançamos através dos silêncios? O que nossos objetos de convívio contarão aos outros, sobre nós, quando partirmos?
 

As casinhas de Chico Santos são objetos/animais da mesma linhagem.
 

A observação dos tipos humanos interessa ao artista, as emoções que trocam são materiais para seu trabalho. Da mesma maneira o cotidiano, as relações menos mediadas por expectativas de impressionar e mais abertas às trocas, os sentimentos que se estabelecem quando alguém oferece ao outro um pouco de si.

Perguntei o que o artista deseja com seu trabalho, ele me respondeu que há sempre uma expectativa de mudança. Eu e ele concordamos que a vida é matéria, que tudo o que criamos sustenta nossa vida, ele me disse então que tem o desejo de tornar real o que ainda não é, o que não existe...ainda.

Suas casinhas podem surgir da afetação causada por uma pessoa com a qual o artista teve contato, e se esta pessoa é feliz, interfere em como a casinha se apresenta.
 

Por fim, penso que o artista Chico Santos está exercendo seu poder sobre o tempo, criando alternativas perceptivas. Pode não ser um grande poder, mas há um desejo honesto de dançar sua própria música fazendo valer sua própria vida.

 

 

P.S.: O artista se preocupa com os resíduos que o seu fazer produz, mantém um minhocário em seu quintal, onde também vive seu gato e mais alguns que vêm da rua até ali sendo cuidados por sua companheira. Há um ecossistema sendo desenvolvido e percebi um equilíbrio se estabelecendo nestas relações.

                                           Texto de Danillo Villa